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Depoimento – Enchente Maio de 2024

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Olás!
Pra quem tem me perguntado por notícias, por mais detalhes, depois de termos sido resgatados da casa inundada pelo Guaíba, senta que lá vem textão 🙂
1_ Depois de um primeiro momento sem internet, sem luz elétrica, de muito cansaço, foi preciso dar um tempo pra começar a processar tudo e tentar colocar ordem no penserê todo. Então, respondendo à principal pergunta, nada está exatamente muito bem, mas também não tá dando pra reclamar. Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará, a vida vem em ondas como um mar, num indo e vindo infinito…
Uma realidade nova, esfacelada, de muito caos, incerteza e vai-e-vens: pois então de repente aquela água não estava só lá fora, ameaçadora, ela começou a brotar do chão, pelas juntas das lajotas do piso. Nunca imaginamos que isso seria possível, mas foi. O horror, o horror!

2_ Aí entendemos que o desastre seria muito maior do que o esperado. Depois de uma longa noite de espera pelo resgate, no temor de que o piso do térreo se rompesse com a pressão do freático, conseguimos sair de casa no sábado, embarcados num bote e num caiaque, a água acima do joelho. Mas saímos bem, estamos bem, minha irmã, meu gato e eu.

3_ É novo e estranho isso de ter a casa e simbolicamente o próprio corpo invadido, tomado pelas águas barrentas de um rio que querem que chamemos de lago e que veio nos relembrar que há muito tempo estamos castigando a nossa Terra e ela só ali, na paciência. Uma hora isso ia acabar, a gente sabia, e ela vem dando muitos sinais de que a paciência com os humaninhos está indo pro saco. É agora em Porto Alegre mas já foi em Mariana, em Maceió, no Amapá, nas encostas da Rio-Santos, na seca do Amazonas. E não vai parar tão facilmente…

4_ E no meio desse entrevero todo, a gente tá tendo muita, muita sorte. Estamos acampados numa casa emprestada, protegidos e super bem abrigados. É ainda um pouco precário, mas é um enorme privilégio termos um teto e estarmos aqui. É tanta gente desabrigada, desamparada, menos afortunados do que a gente, só temos a agradecer porque nosso sofrimento é mínimo perto de tudo o que o nosso Povo está passando. Ainda bem que não tem faltado a solidariedade e a empatia de tanta gente nessa hora!

5_ Estamos a salvo, estamos sãos, mas o emocional complica. Têm sido noites de dificuldade em dormir, de ficar de repente lembrando de algum cantinho ou algum detalhe que ficou perdido no meio de tanta água, de pensar “ah, vou ali pegar o cortador de unhas”, “vou ali pegar o sal de frutas em cima da geladeira” e só então lembrar que não tem geladeira, não tem escritório, as unhas vão ter que ficar para depois e essas coisas estão apenas na nossa memória. A gente sabe que tudo passa, tudo sempre passará, e a gente sabe que daqui a pouco estaremos de volta, e então será outro momento de estranhamento. Rever a casa-ninho-aconchego coberta de lama, a mobília e tudo o mais devastado…
Porque não perdemos só os móveis, os eletrodomésticos, o carro, as roupas, os mantimentos. Isso pode até ter menor valor, ok, mas a gente perdeu nossa história, nossos livros, nossas fotos.

6_ A trajetória de toda a nossa vida, nossas memórias recentes ou da primeira infância, a maioria delas foi vivida e são simbolizadas por uma série de “coisas”. Minha biblioteca de mais de 4 mil livros e revistas, as fotos do pai e da mãe, a coleção do Corto Maltese, do Tintim, os mais de 3.000 CDs (em especial os do Cocteau Twins, do Kraftwerk, do Philip Glass), os quadros pintados, desenhados, os mapas, as maquetes, os brinquedos, as inúmeras recordações de viagem, as bérgères, a Valentina, a almofadinha da Barbie das Economíadas, o piano e o sonho sempre adiado de voltar a estudar… São inúmeras “coisas” e não sei se conseguirei (ou se vou querer) recuperar. E quem diz que são somente “coisas” e que não importam, que o que importa é estarmos bem, é porque nunca passou por uma tragédia dessas. É um pensamento coachingnamastê nova era que não ajuda em nada a melhorar a alma da gente… Mas sigamos, vamenfrente! 😉

7_ E pra quem me perguntou sobre como poderia ajudar, se quiser, se puder, se se dispuser a ajudar, a maior de todas as ajudas eu confesso que seria me ajudar a conseguir trabalho, pq a reconstrução de tudo não vai ser fácil nem barata. Se vc sabe de alguém que precisa de um projeto pra uma casa nova, pra sede da empresa, praquela reforma da churrasqueira, pruma exposição interativa, prum logotipo bacana, pralguma ideia de campanha online, ajudem a divulgar que estou na pishta😀
E claro, sempre tem valor uma boa reza, votos de muita saúde, envio de Reiki, quem sabe até envio de pix, porquê não? Então #fikadika: pedro@urbana.com.br
Beijos, beijos, beijos, e muito obrigado por fazerem parte das minhas memórias mais preciosas!

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